Os "fab 4"
Semana sim, alguém diz que a fusão Sonaecom/Zon faz sentido, semana não, uma das empresas diz que não quer. Agora é a UBS que diz o óbvio: a união faria a força. Mas... para onde caminha a Sonae? Paulo Azevedo sabe, nós não.
As cotadas Sonae são simultaneamente das acções que mais caem em Bolsa e das que têm, segundo os analistas, maior potencial se subida. Este síndroma da incompreensão tem de ter uma explicação. Ou duas.
A primeira explicação é operacional. A Sonae SGPS é penalizada pela conjuntura, a Distribuição factura menos quando o consumo cai, a Imobiliária é afectada pelas restrições ao crédito, a Sonaecom estagna; a Sonae Indústria debate-se com aumentos de custos, a Capital é ainda um “powerpoint” e pode mesmo ter sido precipitado autonomizar a energia criativa numa só empresa, que assim acantona os “novos negócios”.
A segunda explicação é estratégica. Quais são os planos de crescimento, de diversificação, de expansão? Não é de hoje que o grupo entende que se deve alhear do curto prazo, renegando operações de “gestão da acção” pois o valor é sempre reconhecido no longo prazo. Está certo. Mas os donos do dinheiro, accionistas e investidores, gostariam de saber mais.
A opção de crescimento estava clara na OPA à Portugal Telecom, mas deixou de o estar depois disso. Não havia plano B para um grupo que, se comprasse a PT, teria ficado vocacionado para as telecomunicações. A OPA falhou e hoje é possível dizer: ainda bem.
Este jornal está à vontade para afirmá-lo, pois, então, pronunciou-se a favor da OPA (não do sucesso, mas do lançamento) e defendeu a desblindagem de estatutos que, não acontecendo, matou a Oferta.
Não é ideologia, é matemática. Se a Sonae tivesse comprado a PT, com um endividamento colossal, estava hoje com múltiplas cordas ao pescoço por causa da crise financeira, que aumentou as taxas de juro e secou o financiamento, que agora estaria a ser renegociado com a banca. Nesta altura, a Vivo já era, a rede fixa já era, o “cash flow” estaria a ser todo utilizado para pagar juros, etc. É uma ironia do destino, mas Belmiro pode agradecer a Armando Vara: a operação que ia lançar a Sonae para a ribalta estaria hoje a afundá-la em pacote com a PT, por causa de uma crise que ninguém pôde prever.
É por isso que a UBS diz que faz sentido a junção com a Zon, que geraria sinergias superiores ao próprio valor da Sonaecom. Mas o cenário é impossível se for hostil e para deixar de sê-lo a Sonae tem de convencer a Caixa a abrir as portas da Zon. Mas se “Banco é Caixa”, Caixa é Estado, Estado é Governo.
Belmiro escolheu Paulo, que escolheu um colégio de presidentes, quatro CEO, cuja coesão prova que ainda há esperança para o governo de sociedades que não vivam debaixo de um só déspota. É desses “fab 4” que se espera um golpe de asa. Paulo Azevedo já disse que a actual crise financeira é uma oportunidade para fazer negócios. Assim seja, a economia precisa de Sonae. Se não à Belmiro, então à Azevedo.
Jornal de Negócios